Existe uma montanha na França que os ciclistas encaram com uma mistura de respeito e medo. Não é a mais alta do mundo, nem a mais técnica. Mas talvez seja a mais temida do ciclismo. Chamam ela de o Gigante da Provença.
O Mont Ventoux se ergue sozinho, isolado, no sul da França. De longe, entre campos de lavanda e vinhedos, dá para avistar seu topo branco brilhando ao sol. Muita gente pensa que é neve. Não é. São pedras calcárias, nuas, que cobrem os últimos quilômetros da subida e criam uma paisagem quase lunar, sem uma única árvore para dar sombra ou abrigo.
O nome Ventoux tem tudo a ver com o que espera lá em cima. O vento. No cume, as rajadas podem passar de 100 quilômetros por hora. É um lugar de extremos, onde o sol castiga, o ar rareia e o silêncio pesa. Os ciclistas deram a ela vários apelidos ao longo dos anos. A montanha careca. O monte das tempestades. Cada nome, uma forma de tentar entender algo tão implacável.
A subida final parte da cidade de Bédoin, pelo lado mais duro da montanha. São 15,7 quilômetros a uma inclinação média de quase 9%, sem quase nenhum trecho de descanso. Os primeiros dez quilômetros atravessam floresta. Depois, de repente, as árvores somem e a ciclista fica exposta, sozinha, diante daquele deserto de pedra que parece não ter fim. Nos últimos quilômetros, já perto da torre do cume, o vento vira protagonista e a subida fica ainda mais íngreme.
O Ventoux carrega histórias de glória e também de tragédia. Foi palco de duelos lendários entre os maiores nomes do esporte, e também de um dos dias mais tristes do ciclismo, quando o britânico Tom Simpson perdeu a vida em suas encostas, em 1967. Até hoje um monumento marca o local, e ciclistas do mundo inteiro param ali para deixar uma homenagem antes de seguir rumo ao topo. A montanha exige respeito de todos.
E é justamente essa montanha que as mulheres vão enfrentar pela primeira vez na história.
Nesta sexta-feira, dia 7 de agosto, a etapa 7 do Tour de France Femmes termina no alto do Mont Ventoux. É a primeira vez que a maior volta do ciclismo feminino leva suas atletas até o cume do Gigante. A etapa é considerada a mais decisiva de toda a prova, aquela que provavelmente vai definir quem leva a camisa amarela para casa.
Depois de décadas em que só os homens escreviam suas histórias naquelas pedras, agora é a vez delas.
Vai ser um dia para assistir e guardar na memória. Porque não é todo dia que a gente vê uma barreira histórica cair bem diante dos olhos.
Sexta, dia 7. Anota aí.