Existe uma montanha na Espanha que não é a mais alta, nem a mais bonita. É simplesmente a mais dura já incluída em uma grande volta. Chamam ela de Angliru. Ela fica em Astúrias, no norte da Espanha, e é a estrela mais temida da Vuelta, a volta espanhola que está acontecendo agora.
Os números explicam por quê. São cerca de 12,5 quilômetros de subida. À primeira vista, uma inclinação média de 10%, que já é bastante. Mas a média engana. Os primeiros seis quilômetros são quase tranquilos, com uns 6% só. É da metade para cima que o pesadelo começa. A inclinação sobe para mais de 13% de média e não dá mais trégua. E num trecho chamado Cueña les Cabres, a rampa chega perto de 24%. Quase uma parede.
Para você ter uma ideia, 24% é uma inclinação tão severa que muita gente teria dificuldade só de caminhar ali, imagine em cima de uma bicicleta, depois de horas de prova.
E tem uma história que ficou marcada. Em 2002, debaixo de chuva, o ciclista escocês David Millar parou a poucos metros da linha de chegada e se recusou a cruzá-la. Foi um protesto. Para ele, aquilo tinha passado do limite do humano. Não era mais esporte, era sofrimento puro. A frase dele ecoou pelo mundo do ciclismo: não somos animais.
Mas talvez o detalhe mais curioso do Angliru seja a origem. Até o fim dos anos 1990, aquilo nem era uma estrada de verdade. Era um caminho de cabras, uma trilha de terra usada por pastores. Os organizadores da Vuelta procuravam uma montanha capaz de rivalizar com os gigantes do Tour de France. Então pegaram aquele caminho esquecido e o asfaltaram de propósito, justamente por ser insano. Criaram um monstro.
Hoje o Angliru é lendário, onde a vitória não é sobre velocidade, e sim sobre resistir.